O tratamento de pacientes com Doença Renal Crônica (DRC) está pesando cada vez mais no orçamento do Sistema Único de Saúde em Mato Grosso. Um levantamento científico, realizado por pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) analisou registros ambulatoriais do SUS que mostram que, em apenas cinco anos, os gastos com Terapia Renal Substitutiva cresceram de forma expressiva no estado.
Segundo o artigo, intitulado: "Impacto financeiro da Doença Renal Crônica no Sistema Único de Saúde em Mato Grosso (2020-2024)", os custos da Terapia Renal Substitutiva (TRS) para pacientes com DRC representam um desafio significativo de gestão para o SUS. A pesquisa teve como foco entender quanto o sistema público de saúde desembolsou com procedimentos de hemodiálise e cirurgias para criação de fístula arteriovenosa, que é o acesso vascular utilizado para o tratamento.
De acordo com a pesquisa, o número de atendimentos de hemodiálise financiados pelo SUS passou de 21,2 mil em 2020 para 25,4 mil em 2024. Esse salto representa um crescimento aproximado de 19,6% na quantidade de procedimentos realizados.
Segundo os pesquisadores, o reflexo financeiro foi ainda maior, visto que os valores aprovados pelo SUS para custear essas sessões subiram de R$ 53 milhões em 2020 para quase R$ 77 milhões em 2024. “Os resultados indicaram uma tendência crescente na oneração dos cofres públicos, com um aumento de 45% nos custos totais no período”, diz trecho do artigo.
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Esse comportamento ascendente, segundo o estudo, está ligado à própria característica da DRC, pois a doença avança lentamente e, muitas vezes, sem sintomas aparentes. Por isso, grande parte das pessoas só descobre o problema quando os rins já perderam quase toda a capacidade de funcionamento.
Diagnóstico tardio sai caro
Um dos pontos apresentados na pesquisa compara o custo de pacientes que estão iniciando o tratamento com aqueles que já convivem com a doença há mais tempo. A conclusão foi clara: “a análise do tempo de acompanhamento demonstrou que o diagnóstico tardio é o principal impulsionador financeiro”.

Os dados revelam que pacientes com mais de um ano de tratamento geraram despesas de aproximadamente R$ 34 milhões, enquanto os casos novos representaram gastos de cerca de R$ 19,5 milhões. Essa diferença chega a 74% a mais para quem foi diagnosticado em fase avançada.
Isso significa que, quando a DRC não é identificada logo no começo, o SUS acaba arcando com internações, medicamentos e sessões de diálise muito mais prolongadas e custosas.
Perfil dos pacientes
A pesquisa também traçou o perfil de quem mais utiliza o serviço público para esse tipo de tratamento e segundo o levantamento, a predominância é masculina, com 55,23% dos registros abaixo dos 60 anos.
A média de idade dos pacientes atendidos em Mato Grosso foi de aproximadamente 58 anos. Ainda assim, mais da metade deles tem menos de 60 anos, ou seja, estão em idade produtiva, trabalhando e sustentando famílias.
Entre as causas associadas à doença, o estudo destaca que a hipertensão e o diabetes aparecem como principais fatores. Os próprios autores enfatizam que “a Doença Renal Crônica é impulsionada por doenças preveníveis”, reforçando que muitas dessas despesas poderiam ser evitadas com acompanhamento médico regular.
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Efeito da pandemia
O trabalho científico identificou um pico de gastos no ano de 2022, devido ao impacto da pandemia de Covid-19, que gerou um aumento nos procedimentos de diálise no estado, explicando o pico de custos no perído.
Estudos citados na pesquisa mostram que a infecção por Covid provocou lesões renais em diversos pacientes e parte deles evoluiu para a forma crônica da doença, aumentando de maneira permanente a procura por hemodiálise no SUS mato-grossense.

Falhas nos registros preocupam
Além dos números elevados, a análise trouxe à tona um problema de gestão: a baixa qualidade das informações lançadas no sistema do SUS. O campo classificado como “não preenchido”, referente ao tempo de acompanhamento dos pacientes, respondeu por 73% da frequência dos registros e por 74,2% de todo o valor gasto.
Os autores tratam esse ponto como o achado mais crítico, pois, para eles, essa falha pode refletir falta de treinamento, sobrecarga de trabalho e/ou ausência de protocolos padronizados de preenchimento.
Segundo os autores, sem dados confiáveis, o poder público tem dificuldade para dimensionar corretamente quantas pessoas estão em tratamento, por quanto tempo e quanto será necessário investir nos próximos anos.
Prevenção como caminho
O estudo conclui que o problema precisa ser enfrentado na base do sistema de saúde: “Aprimorar a atenção primária à saúde surge como medida fundamental para reduzir custos futuros”, defendem os pesquisadores, que reforçam quanto a necessidade do fortalecimento de postos de saúde, equipes da família e programas de controle da hipertensão e da diabetes, pois pode evitar que milhares de mato-grossenses cheguem à necessidade de hemodiálise.
Tal preocupação vai além do período analisado, visto que os autores citam projeções nacionais que indicam que, até 2032, o número de brasileiros que vão precisar de hemodiálise ou transplante pode mais que dobrar e sem investimento em prevenção e melhoria da gestão da informação, o impacto financeiro tende a se tornar ainda mais pesado para o SUS em Mato Grosso.
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