Dia Internacional da Mulher

"Dedicação é fundamental para alcançar o sucesso"

Entrevista com a pesquisadora Simone Matias Reis

Por Hemília Maia
08/03/2022

Simone em coleta de campo no Parque Municipal do Bacaba em Nova Xavantina-MT (Foto: Arquivo pessoal)

Em fevereiro, a pesquisadora da Unemat, Simone Matias Reis, teve seu artigo Danos na copa impactam fortemente a morte de árvores no sul da Amazônia publicado na revista britânica Journal of Ecology. A publicação gerou uma série de reportagens e ampla divulgação pela mídia. Com destaque nacional e internacional, seu trabalho teve alcance em vários países como Alemanha, Espanha, Indonésia, Polônia e Reino Unido, além do Brasil.

Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, a Unemat preparou uma entrevista especial com a professora e orientadora do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Universidade do Estado de Mato Grosso. Simone é “prata da casa”, egressa da graduação em Ciências Biológicas, do mestrado em Ecologia e Conservação e do doutorado em Biodiversidade e Biotecnologia pela Instituição. Na sequência, concluiu pós-doutorado na Rede de Monitoramento Intensivo Global (GEM) da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Entrevista

Unemat - Como é ser pesquisadora no Brasil?

SMR - Apesar de estar em início de carreira, estou em um laboratório de pesquisa desde 2008 e posso afirmar que não é fácil. É preciso ter muita paixão para seguir em frente com a pesquisa. Apesar de termos a maior e mais diversa floresta tropical do mundo, a pesquisa ainda é pouco valorizada em nosso País. Sempre que se pensa em cortes financeiros, os cortes são realizados em educação, especialmente em pesquisa. Essa situação ficou ainda mais difícil após os elevados cortes de financiamento do CNPq e da CAPES, onde muitas pesquisadoras, especialmente em início de carreira, ficam sem apoio financeiro para desenvolver suas pesquisas.

 

Unemat - Você considera que as mulheres que se dedicam à ciência são valorizadas?

SMR - As mulheres vêm ganhando espaço com o tempo, porém, há muita luta pela frente ainda. Infelizmente, ainda nos dias de hoje, nossa sociedade é muito machista e muitas vezes somos julgadas como incapazes de sermos pesquisadoras, de realizar pesquisa de ponta. E, precisamos nos desdobrar para que nosso trabalho seja reconhecido. Não é fácil, mas um dia chegaremos lá. Nossa professora (Beatriz Schwartes Marimon) sempre nos instiga, falando que ainda faltam mulheres nos cargos tomadores de decisões, como ministérios, etc. Por exemplo, quantas mulheres já foram presidentes da Fapemat? Nenhuma, o que demonstra claramente o quanto as mulheres não são valorizadas o quanto merecem.

 

Unemat - Seu trabalho e sua trajetória servem de inspiração para muitas mulheres e meninas que sonham em trabalhar com ciência. Qual conselho você daria a elas?

SMR - Corram atrás de seus sonhos, sempre haverá obstáculos, mas que podem ser superados. Se valorizem, acreditem em seus potenciais, vocês são capazes! E se alguém disser que não o são, não acreditem, você s podem muito mais do que pensam!

 

Unemat - Tem um roteiro a ser seguido?

SMR - Não acredito que tenha exatamente um roteiro. Mas, fazer o trabalho com dedicação, sempre fazer o melhor que pode já é um bom início. Sempre se pergunte: Eu fiz o meu melhor?

Dedicação é fundamental para alcançar o sucesso. É necessário seguir com rigor as metodologias científicas e ter muita ética. Outra coisa que tenho observado é que estágios em laboratórios de pesquisa ajudam muito no aprendizado. Então, se pretende ser uma pesquisadora, comece a frequentar um laboratório, veja se é isso que quer e se for, siga em frente. Posso afirmar que estar em um laboratório que desenvolve diversas pesquisas, com professores preocupados com o aprendizado do aluno, com elevada heterogeneidade de pessoas, fez e continua fazendo toda a diferença em minha carreira.

Unemat - Quem são as mulheres cientistas que a inspiraram e ainda inspiram?

SMR - Sou inspirada todos os dias por muitas mulheres, especialmente por aquelas que lutaram muito para que as mulheres pesquisadoras de hoje fossem conquistando seu espaço. Sei que há muita luta pela frente, mas essas mulheres já conquistaram muito. Poderia citar o nome de muitas mulheres cientistas, mas hoje vou citar o nome de uma professora que sempre me inspirou. Uma das pesquisadoras que inspira a mim e muitas outras mulheres é a professora Beatriz Marimon, professora Bia, como a chamamos. Ela é uma pesquisadora incrível, que sempre fez o possível e impossível para desenvolver pesquisa de qualidade com poucos recursos. Eu e alguns colegas há chamamos de “nossa mãe cientista”. Pois, há uma preocupação tão grande em nos ensinar, de transmitir o conhecimento adquirido ao longo da carreira. E com isso ela acaba nos transferindo a paixão que ela tem pela ciência e pela pesquisa.  Quando ficamos com medo e achamos que não vamos conseguir ela nos incentiva e diz “que nós podemos, para tentar de novo” por isso a chamamos de mãe cientista. Que a minha mãe biológica não fique com ciúmes (risos).

 

Unemat – Fale um pouco de sua jornada, você sempre teve apoio?

Vim de uma família muito humilde, meus pais e avós eram pequenos agricultores, mas sempre incentivaram a frequentar a escola. Sempre estudei em escola pública e sonhava em terminar o ensino médio que para mim já era uma grande conquista. Mas, quando terminei eu quis ir um pouco além. Foi quando conheci a Unemat, tentei fazer Matemática, porque sempre gostei muito dos números, mas me faltava algo e, quando conheci a Biologia, simplesmente me apaixonei. Não pude frequentar um laboratório na minha graduação, pois conseguir bolsa na época era muito difícil, mas assim que terminei a graduação recebi minha primeira bolsa e mergulhei nesse universo de pesquisa. Meio ano depois entrei para o tão sonhado mestrado e depois para o doutorado, também pela Unemat. Recebi bolsa para realizar ambos, sem a bolsa não teria conseguido. Durante o doutorado, morei um ano na Inglaterra, estudando na Universidade de Leeds. Foi uma experiência incrível, nunca tinha andado de avião, imagine ir para outro país, com cultura e idioma diferentes. Essa etapa só aconteceu porque tive alguém que acreditou que eu podia, acreditou que eu era capaz, a minha mãe cientista.

Logo que terminei o doutorado comecei um pós-doutorado pela Universidade de Oxford. Sempre aprendendo. O apoio da família e do parceiro é fundamental. Esteja com alguém que fique feliz com o seu sucesso, alguém que acredita no seu potencial, alguém que sonha os seus sonhos. Espero que essa história sirva de incentivo para outras mulheres que sonham, mas as vezes falta apenas um “vamos!”.

 

Unemat – Como o Brasil “promove” a ciência e suas cientistas. Há alguma iniciativa de destaque nesse sentido?

SMR: Até o momento eu desconheço.

 

Unemat - Na data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher qual conquista você destacaria como relevante para as mulheres cientistas?

SMR: As mulheres vêm conquistando diversos lugares no mercado de trabalho e isso é uma grande conquista. Em 2021, por exemplo, a secretaria de comunicação de Mato Grosso foi assumida pela primeira vez por uma mulher. Além disso, o número de mulheres na academia vem crescendo. Porém, há muitas áreas, como nas engenharias que há poucas mulheres. Nos cargos políticos também é necessário avançar muito. Dos 23 ministérios do Governo, quantos são liderados por mulheres? Menos de 15%. É muito pouco, o que demonstra o quanto falta progredirmos nesse aspecto.




Ainda há uma longa jornada para a ciência no Brasil

A professora da Unemat no câmpus de Nova Xavantina, Beatriz Marimon, doutora em Ecologia e, segundo Simone, ”nossa mãe cientista”, faz um alerta: “Pesquisas dependem de financiamento. Sem financiamento é impossível fazer pesquisas de ponta. O valor investido em recursos no Brasil é muito baixo comparado a outros países. Temos pesquisadores e pesquisadoras supercompetentes, mas não há financiamento suficiente, com isso o Brasil se torna dependente de outros países tecnologicamente. Precisamos nos tornar independentes de outros países para que nosso país possa avançar”.

 


Talentos que não desabrocharam

Na história recente, há pouco mais de um século, havia mulheres que atuavam à sombra de homens e no universo da ciência não era diferente, como foi o caso da primeira esposa de Albert Einstein, Mileva Maric. Após ser a única mulher da turma do futuro marido no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, e a segunda a terminar o curso no Departamento de Matemática e Física da Instituição, Mileva teve sua carreira encerrada em 1901, quando engravidou de Einsten. Especula-se que Mileva sofria de depressão por não conseguir participar das intensas discussões científicas do marido e dos colegas, embora ajudasse Einsten a redigir artigos e a preparar palestras. Enquanto a carreira de Albert deslanchava, Mileva exercia a função de esposa e mãe.



Precursora na Ciência

Marie Curie, física e química polonesa naturalizada francesa que conduziu pesquisas pioneiras sobre radioatividade, parece ser a precursora das cientistas da história moderna reconhecidas pela sua ciência, mas sua trajetória teve muitos percalços. Para alcançar suas conquistas científicas, Marie Curie teve que superar barreiras, tanto em seu país natal quanto em seu país de adoção, que foram colocadas em seu caminho apenas por ser mulher. Esse aspecto de sua vida e carreira é destacado na obra Marie Curie: A Life, de Françoise Giroud, que enfatiza o papel de Curie como precursora feminista.


Assessoria de Comunicação - Unemat

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