UNEMAT FAZ PESQUISA

Pesquisa aponta como mídia influencia relações entre espécies animais, humanas e não humanas

Por Danielle Tavares
21/10/2026

Tucano briga com o próprio reflexo em um prédio na Avenida do CPA, em Cuiabá (Foto: Eveline Baptistella)

O que um tamanduá-bandeira que entrou no prédio da Unemat, em Cáceres, um jacaré-do-pantanal que vive na galeria de águas fluviais de um estacionamento, de Cuiabá, e uma onça-pintada que passou a frequentar as dependências de um hotel, em Poconé, têm em comum?

Além de terem sido alvos de centenas de fotos e de se tornarem extremamente populares nas redes sociais e nos meios de comunicação, esses animais viraram o centro de uma pesquisa da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), que estuda como a mídia influencia as relações entre espécies no contexto da crise ambiental.

A pesquisa “Animais e mídia”, realizada ao longo de 10 anos, documentou que animais silvestres estão passando por um processo de mudança cultural para se adaptarem às pressões decorrentes da perda de habitats e do aquecimento global.

Eles estão cada vez mais tolerantes à proximidade com seres humanos, pois “mudar” para as cidades é a única forma que encontram de sobreviver. Assim, ficaram mais visíveis e se tornaram foco de intensa exploração midiática, construindo uma representação equivocada, na qual passam a ser vistos pela sociedade como equivalentes a animais de estimação.

“Designamos esse processo de 'petificação', ou seja, é a criação de um imaginário no qual se pensa que animais selvagens podem ser tratados como pets. É um fenômeno global, impulsionado por fotos, vídeos e reportagens que mostram humanos abraçando e acariciando, por exemplo, botos cor-de-rosa, elefantes e até onças-pintadas. O impacto desse modelo se desdobra em áreas que vão da vida cotidiana até o turismo”, explica a professora Eveline Baptistella, doutora em Estudos de Cultura Contemporânea, que coordena os estudos em parceria com pesquisadores da própria Unemat e parceiros do Brasil e da Europa.

A professor Eveline lança obra sobre a temática, em São Paulo

Ela destaca que outros fatores que favorecem os encontros entre espécies são a expansão imobiliária, o avanço da monocultura e os incêndios florestais. “É por isso que animais geralmente arredios, como antas e veados, passaram a ser vistos com frequência perto de cidades. Sem falar em grandes mamíferos, como a onça-parda e a capivara, que aparecem bastante em áreas residenciais. Essa presença gera fascínio e é amplamente coberta pela mídia. O problema é que essas narrativas romantizam as situações e escondem a fragilidade dos animais não humanos”.

Tais conteúdos midiáticos acabam amplificando o desejo de ter uma relação íntima com um animal silvestre e estimulam contatos inapropriados. Os animais têm seu próprio espaço pessoal e podem reagir negativamente. “Quando ocorre uma interação negativa, o animal acaba sendo morto ou afastado de sua comunidade, passando o resto da vida em cativeiro. A questão é que foi uma interferência humana indevida que causou o problema, e isso não é evidenciado. Ou seja, a mídia deixa de cumprir a função pedagógica de alertar sobre formas adequadas de convivência entre espécies”, afirma Eveline.

Foto: Assessoria de imprensa da PM-MT

Contudo, a pesquisadora ressalta que jornalistas de todo o Brasil vêm demonstrando interesse em adotar condutas mais éticas. “Já foi possível ver muitos progressos no uso da linguagem e nas práticas jornalísticas. Mas as redes sociais seguem sendo um grande gargalo, pois quanto mais os animais aparecem ‘petificados’, maior é o número de curtidas”, destaca a cientista.

ABORDAGEM MULTIDISCIPLINAR

Desenvolvido no curso de Jornalismo da Unemat em Tangará da Serra, o trabalho é interdisciplinar e se divide em duas etapas.

Inicialmente, é realizado um trabalho de campo, chamado etnografia multiespécies, em que as dinâmicas de convivência entre animais humanos e não humanos são documentadas e analisadas. “Geralmente, as pesquisas enquadram os animais não humanos no domínio da Biologia e da Ecologia. Aqui, focamos nas suas estruturas sociais e seus processos cognitivos. Assim, conseguimos identificar não só a presença da cultura em diferentes espécies, mas também verificar a sofisticação da inteligência deles”, explica Eveline. 

Foto: Larissa Metele

A cientista cita o caso dos tucanos e araras-canindé, que se tornaram aves urbanas na última década, adaptando seus modos de vida à dinâmica das cidades. “Encontrei tucanos que fazem ninhos em caixas d'água e que passaram a receber alimentos de humanos. Já as araras estão tão integradas às cidades do Centro-Oeste, que temos municípios que já dispõem de ninhos artificiais para que elas possam se abrigar e reproduzir”, conta a professora.

Na segunda etapa dos estudos, são analisadas reportagens, programas de TV, peças de publicidade e posts em redes sociais. Além de embasar publicações científicas, os dados e a expertise dos pesquisadores do projeto embasam leis-modelo, manuais, cursos e produtos técnicos.

“Os animais não humanos estão em sofrimento e já entregaram o que têm de mais precioso: suas próprias culturas. Viver perto dos humanos é sua única saída. Como responsáveis pela crise ambiental, é nossa obrigação mudar também nossa cultura para que eles possam existir com dignidade. A mídia é essencial para promover novas atitudes. Poder contar com a ciência contribui para que os novos rumos sejam mais precisos”, finaliza Eveline.

Os resultados já foram publicados em revistas nacionais e internacionais, em três livros internacionais e dois livros nacionais. Acesse as principais publicações: www.animaisefronteiras.com.br e https://www.researchgate.net/profile/Eveline-Baptistella?ev=hdr_xprf


Assessoria de Comunicação - Unemat

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