Conhecimentos tradicionais sobre os espíritos protetores das matas e das águas viraram ferramenta pedagógica na Terra Indígena (TI) Umutina, em Barra do Bugres (168 km de Cuiabá). Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) articulou a cosmologia do povo Balatiponé à rotina escolar de alunos do 9º ano da Escola Estadual Indígena Jula Paré, resultando em um produto educacional digital que une oralidade, arte e conservação ambiental.
O estudo é de autoria da professora indígena Luciane Ipaqueri Quezo, sob orientação da docente Lisanil da Conceição Patrocínio Pereira. A investigação integra o Programa de Pós-Graduação em Ensino em Contexto Indígena Intercultural (PPGecii) da Unemat, no câmpus de Barra do Bugres. A defesa da dissertação "Os guardiões da natureza segundo o povo Balatiponé" está prevista para 19 de novembro.
Cosmologia e proteção do território

Na visão do povo Balatiponé, florestas e rios abrigam donos ou encantados, entidades que estabelecem as regras para o uso dos recursos naturais, o manejo, a caça e a pesca. Para a pesquisadora, a relação com o meio ambiente fundamenta-se no pertencimento e no respeito mútuo.
Nossos anciãos são uma biblioteca viva. Na cultura Balatiponé, o aprendizado ocorre pela prática e pela escuta. A pesquisa buscou entender como esses conhecimentos sagrados protegem o território e como podem ser trabalhados na estrutura escolar, afirma Luciane Quezo.
Integração comunitária e formato digital
A metodologia qualitativa reuniu levantamento bibliográfico, entrevistas e oficinas pedagógicas realizadas durante a Semana Cultural da escola. O principal narrador foi o professor Luizinho Ariabo Quezo, pai da mestranda, que compartilhou vivências sobre a espiritualidade e a lida na mata com 15 estudantes.
Divididos em três grupos, os alunos ilustraram sete narrativas tradicionais referentes a entidades como o Pai do Mato, o Espírito Adivinhador e o Tulua, além de retratarem paisagens e atividades da comunidade.
As histórias e as produções artísticas foram reunidas em um e-book educacional. O material digital servirá de suporte pedagógico para a escola Jula Paré e poderá orientar iniciativas semelhantes em outras etnias. A publicação será lançada após a etapa de autorizações comunitárias.
Preservação do saber reservado
A investigação também estabeleceu limites éticos entre o conhecimento de domínio público e o saber de uso restrito da comunidade. Determinados relatos compartilhados durante os encontros não foram registrados no trabalho acadêmico.
"Nem tudo deve ser escrito. Por direito e por respeito à nossa tradição, resguardamos parte dos conhecimentos apenas para a transmissão oral entre o nosso povo", explica a pesquisadora.
Formada em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Luciane atua na escola indígena desde 2024 no acompanhamento de estudantes com deficiência intelectual, conciliando a atividade docente à salvaguarda do patrimônio cultural Balatiponé.
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