Autor(es)/Organizador(es): Daniela Patrícia Pereira dos Santos
Nº de páginas: 165
Ano de publicação: 2026
A proposta deste livro é investigar a constituição identitária das personagens de Torto arado em meio aos traumas gerados pela escravidão no Brasil, e os efeitos da intersecção entre identidade e lugar para a expansão da consciência identitária e emancipação das personagens na narrativa. A dinâmica que liga o sujeito à terra é questionada pelos descendentes de africanos escravizados que, historicamente, foram condenados a lugar nenhum, um lugar em que habita o complexo de inferioridade (Fanon, 2008). No romance, esse “lugar nenhum” é nomeado pela expressão “viver de morada” (Vieira Júnior, 2019, p.179). A trama abrange a complexidade da composição identitária do sujeito migrante, considerando que a diáspora e o deslocamento forçado promovem identidades múltiplas (Hall, 2003) e que as identidades mudam em relação com outras identidades, com outros territórios reais ou imaginários (Glissan, 2011). Ao abordar sobre a importância do reconhecimento do sujeito em suas individualidades (Bhabha, 1998), Torto arado dialoga com a sociedade brasileira sobre o direito de existir dessa população invisibilizada e silenciada, mas que pode lutar contra essa sujeição (Spivak, 2010). As vozes das personagens negras provocam o deslocamento literário para uma perspectiva diferente (Candido, 2004) e levam o leitor a refletir e a repensar sobre a presença e o lugar dos negros na sociedade brasileira. Ao se apropriarem de suas identidades, individual e coletiva, e assumirem a condição de quilombolas, as famílias de Água Negra de Torto arado assumem a postura de enfrentamento contra o regime de exploração tradicionalmente imposto aos descendentes de africanos no Brasil.